Como a corrida pode ser o melhor remédio contra o estresse

(Foto: Arquivo pessoal)
Ana Lucia Azevedo, da Agência O Globo


Ponto pacífico que a corrida, como atividade física, traz benefícios cardiovasculares e boa forma física. Mas, para mim, constitui sobretudo uma atividade mental, o melhor remédio contra o estresse que encontrei na vida. Pois correr, para quem se permite, é meditar em movimento.

O meu mantra emana do som da minha respiração e das minhas passadas. À medida que os quilômetros passam, avanço para estados mentais de foco e alívio de dores do corpo e da mente. Há apenas o agora em toda sua intensidade.

Poderia observar as árvores da Floresta da Tijuca, as curvas da estrada do Horto ao Alto da Boa Vista, o canto dos pássaros e o burburinho dos ciclistas à minha volta. Mas, aos poucos, eles se fundem num vazio e se tornam apenas um pano de fundo difuso. Chego a um lugar que me traz conforto, nas profundezas da minha mente. E, por momentos, a corrida me transporta para um estado de bem-estar mental, entre a graça e a euforia.

Essas sensações estão longe de ser raras. Muitos corredores de longa distância as relatam, com as óbvias variações pessoais. Na verdade, suponho que são comuns a todos aqueles quem não estão obcecados somente em controlar ritmo e velocidade em busca de performance e se permitem a viajar no melhor que a corrida tem a oferecer.

A corrida tem sido a minha melhor companheira numa longa travessia, pois a vida é uma ultramaratona. Ficaram pelo caminho pequenos e grandes percalços do dia a dia. Dores nos pés, na coluna, no estômago, de amores, amigos, família, trabalho. Em cada dificuldade, foi na corrida que encontrei o alívio, o foco, a concentração e a força para seguir em frente.

Em sua pequena obra-prima “Do que eu falo quando eu falo em corrida” (no Brasil lançado pela Alfaguara, 2007), o escritor e ultramaratonista japonês Haruki Murakami sintetiza o sentimento ao dizer que “a maioria dos corredores não corre porque deseja viver mais, mas porque quer viver em plenitude”.

Cada um tem o seu momento eureca de perceber que o ganho mental da corrida pode ser ainda maior do que o físico. A minha prova cabal veio no dia em que percebi que minhas melhores decisões e a melhora da ansiedade que sentia no breve período em que decidi experimentar análise não vinham das sessões, mas dos momentos em que ia e voltava correndo do consultório do analista.

Chegava do trabalho, punha os tênis e corria - em sentido literal - para a sessão. Voltava da mesma forma. Numa dada noite, o analista teve problemas e não pode comparecer. Dei meia volta e me senti tão bem quanto quando fazia sessões. Não fizeram falta. E nunca mais voltei. Percebi que para mim, a corrida era o principal agente modificador positivo. Eu já corria antes e passei a correr ainda mais depois.
Nem para todo mundo será assim. Mas para mim funcionou, talvez porque sempre tenha amado correr e seja uma pessoa de natureza ativa, em busca de movimento. As ruas e as trilhas são o meu divã. A Floresta da Tijuca, meu lugar favorito para correr, é o meu templo.

Hoje, a neurociência explica como a corrida ajuda a combater o estresse, a ansiedade e a depressão. Mostra também que correr e meditar levam aos estados mentais de foco, analgesia - o nome que a ciência dá ao alívio da dor e a sensação de leveza - e êxtase por caminhos diferentes, explica o neurocientista Ricardo Reis, chefe do Laboratório de Neuroquímica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desportista convicto, Reis é um ardoroso defensor dos benefícios da atividade física para a saúde mental.

Qualquer coisa, seja meditação ou corrida, que leve a determinado gasto energético prolongado e sustentado, promove estados mentais ligados à concentração, ao foco e à analgesia, diz o professor de neurociência.

As atividades intensas e prolongadas - como corrida, ciclismo e natação de longa distância - fazem o corpo a suportar um estado próximo ao da exaustão por horas a fio. O cérebro então precisa dar seu jeito. E ele faz isso por meio da liberação de uma série de substâncias. Áreas cerebrais como a ínsula, o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior ativam mecanismos ligados ao foco, à analgesia, à memória e à euforia. Essas regiões se conectam à medula, que funciona como um rio por onde fluem as sensações de dor e alívio, diz Reis.

Entram em ação também sistemas como o endocanabinoide e o opioide, que fazem o corpo produzir compostos com ação muito semelhantes à dos princípios ativos da maconha e do ópio, respectivamente. O sistema de recompensa, o da dopamina, também se acende.

Nosso sistema opioide libera as endorfinas, velhas conhecidas dos corredores, e suas primas menos famosas encefalinas e dinofirnas. O sistema endocanabinoide inunda o corpo de anandamida e 2AG. Essa poção química natural faz a sensação de dor diminuir ou desaparecer. E proporciona algo próximo do que chamamos de estado de graça, de energia infinita e felicidade genuína. “Vem daí o bem-estar quase religioso que experimentamos durante e depois de uma atividade física”, explica Reis.

Toda a fisiologia do corpo humano muda com o exercício, frisa o neurocientista. Ao correr, transformamos o corpo em instrumento para tocar uma sinfonia de estados mentais positivos. Correr é usar as pernas para mergulhar na alma.
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