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Baiano inventa forma de faturar no zap divulgando nudes da galera do bairro

(Foto: Acervo pessoal)


“É como se fosse uma mistura de GMagazine e Playboy”. A explicação de Thalisson Cardoso, 27 anos, sobre suas publicações na função status do WhatsApp está tão antiga – as revistas de gente pelada já nem existem mais – como imprecisa. Funcionário de uma empresa de telemarketing, o morador do bairro de Vida Nova, em Lauro de Freitas, simplesmente criou uma novíssima maneira de interação nas redes sociais que, além de entreter o bairro e gente de toda a Região Metropolitana de Salvador, também tem lhe rendido recebidinhos, acertos informais de publicidade e até a fama de ser um conselheiro sexual (e amoroso) dos mais confiáveis.

(Foto: Acervo pessoal)

E a confiança é mesmo um fator decisivo para tornar o ‘serviço’ de Thalisson possível: ele recebe nudes e vídeos picantes de pessoas anônimas (quase todas da região onde mora, conhecidas pessoal ou virtualmente) e, sem identificá-las, posta em seu status (espécie de stories) do zap.

A repercussão é grande: milhares chegam a ver seus posts e comentam, no privado, o que acharam da exposição de cada figura. Esse ‘retorno’ é então enviado a quem confiou o nude, e o ciclo se fecha. Sim, porque o moço não faz meio de campo pra ninguém. O que acontece em Vida Nova, fica em Vida Nova.

Segundo Thalisson, 80% do público é feminino, e são elas quem mandam mais fotos também – embora nem sempre explícitas. “Sou gay e sempre tive muita afinidade com as mulheres, que são a maior parte de minhas amizades. Com isso, ‘amigos’ acham que devo fazer as chamadas ‘pontes’, que seria apresentar as amiguinhas. E por ver as meninas no seu auge, só enxergam elas como um pedaço de carne a ser devorado. Prefiro não fazer coisas, eles bem sabem, e as meninas sabem disso também. E olhe que já me ofereceram até dinheiro pra passar contato, mas não passo”, conta ele, que vem construindo essa confiança desde 2017, quando o WhatsApp lançou a função.

“Começou na casa de uma amiga em Itapuã. Eu estava fazendo massagem nela, tirei a foto e postei no status. A partir dali, fui dando upgrade nas imagens e, com isso, a galera foi se jogando e perdendo a vergonha do seu corpo ao ler os comentários”, explica o rapaz, que criou uma rotina de postagens dos pintos, ppks e publis, hoje já assimilada por quem o segue e é seguido.

Rotina

Como toda boa saliência, os status de Thalisson também têm suas preliminares – as quais também explicam a popularidade do moço. Como os nudes só costumam entrar depois da meia-noite, os posts de mais cedo acabam sendo fotos de amigos, com ligeira ‘propaganda’ no estilo “a quem interessar possa”. 

“Negão gostoso, mas não vale nada. Contudo, gosto dele”, alerta sob a foto posada do dito cujo. “Ele queria ser GP, contudo vem de uma família tradicional e decidiu ser farmacêutico, melhor do ramo”, apresenta outro.

A língua ferina também recai sobre elas. “Essa ama homens casados”, “chupona da marquinha acesa”, “morena flor que não se cheira. Perigosa, muito perigosa” ou “xana de mel com gengibre, pura energia”, resumia nas legendas de alguns dos posts bem-humorados na quarta-feira (29). 

Mas nem sempre a galera tem paciência de esperar o grande momento. “Sem muita conversa. Quero ver as rolas. Tô de vale night por 10 dias”, avisou uma, à espera dos nudes da rapeize.

Os dias mais bombados são em finais de semana, mas nem sempre é possível atender os anseios gerais. “Como sou do axé, às vezes FDS tô em função, e acabo não postando. Aí a galera pergunta logo se houve alguma coisa, mas não são de falar muita coisa não. Trabalho, me sustento, banco minha rainha que habita meu estômago, tudo de boas”, avisa sobre o caráter informal e desobrigado da coisa.

Não abra

No trabalho, aliás, a turma curte e às vezes até compartilha as próprias fotos. Na família também, embora no início a coisa não tenha sido muito bem vista. “Alguns criticaram, mas não deu em muita coisa não. Só suspendia meus sobrinhos, menores, de ver meus status. Os mais velhos são meus fãs”. 

E para que os fãs/seguidores não passem situações constrangedoras, Thalisson criou uma hashtag que antecede as postagens +18. “De tanto a galera falar que abria em ônibus, em uber, no metrô, e passava vergonha, surgiu o #naoabranometrô”, a senha para não cair no gemidão visual.

O alcance das publicações, que tem colaboradores de outras cidades e até do exterior, acabou rendendo a Thalisson fama de bom garoto-propaganda. 

“Todo dia (tem publi), principalmente das pizzarias do bairro. Os mesmos que mandam fotos, pedem pizza. Também faço merchan de lanchonete, vendas de terrenos, produtos eróticos. Inclusive já vendi alguns, usaram e mandaram um vídeo, usando o vibrador”, comenta ele, que normalmente não recebe em dinheiro. “Mandam, eu posto e, com frequência, chegam recebidos e lembrancinhas. Minha dieta não fica feliz com isso”.

Sex education

As constantes interações com os peladões acabaram trazendo, além de mimos, responsabilidades. De forma quase involuntária, Thalisson se tornou um terapeuta sexual informal, tal qual o protagonista da série Sex Education (Netflix). 

“Dei muita risada, porque antes de começar a assistir a série, já tinham comentado comigo sobre ele, que eu deveria cobrar também pelos conselhos e ganhar dinheiro com isso”, relembra o rapaz, que chega a ser abordado na rua.

“Já me pediram conselhos muito parecidos com os da série. Quase todos os dias, até pessoas no ponto de ônibus. Já aconteceu de pegarem meu contato, me ligarem e me contar umas história macabras. Sou libriano e bom ouvinte. Até já ganhei presentes por ter ajudado”, relembra o Otis Thompson de New Life.

Toda nudez

Procurei a psicóloga Lívia Vasconcellos, mestre em Psicossociologia, para me ajudar a entender a necessidade das pessoas de colocarem seus corpos à mostra, e ela trouxe uma luz sobre o assunto, mas não sem antes destacar a genialidade de Thalisson. 

“Me surpreendeu como ele conseguiu fazer um arranjo e subverter as coisas para conseguir o que ele e as pessoas queriam. É como se ele tivesse feito uma gambiarra das funções do Instagram, onde não é permitido nudez e anonimato, e colocado no WhatsApp, e sem depender dos algoritmos”, elogia a psicóloga. De fato, um feito e tanto.

Sobre os nudes, quis saber por que o povo (a maioria mulher) têm tanta curiosidade de saber o que o zoto acha do seu corpo. “As pessoas querem saber se o corpo está sendo aprovado ou não por uma comunidade, se são desejadas. Tem um prazer em se sentir desejado. Isso tem a ver com autoestima, com a pessoa saber se os procedimentos dela de autocuidado deram certo – seja malhar, ter um bronzeado”, exemplifica. 

Uma das 'criadoras de conteúdo' do perfil de Thalisson confirma a percepção e acrescenta sua perspectiva. "Tem mais a ver com o fetiche de ser desejado, anonimamente. Do fato da gente pertencer a um país cristão, e as pessoas condenarem a sua sexualidade. E todo tabu que envolve o corpo, o erótico, o desejo", analisa a fonte, sob anonimato.

Mas por que elas estão em maior número nessa brincadeira, doutora Lívia? “O fato de a maioria ser mulher tem a ver com o fato do corpo da mulher ser muito mais olhado, observado, condicionado a determinados padrões do que o corpo do homem. Sempre tem um julgamento sobre o corpo da mulher, e claro que, para muitas delas, é muito mais preocupante saber se está sendo aprovada. Então, tem a ver com a autoestima, autocuidado, construção do que você pensa sobre si mesma, com a sua segurança”. Entendi.

Bom, o zap de Thalisson eu vou ficar devendo, porque a rainha no estômago não autorizou a divulgação, mas permitiu o endereço do Instagram. Segue lá @thalissoncardoso1 e pede pra entrar na brincadeira, que ele vai pensar no seu caso.

O Correio 24h

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