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Conheça a cidade baiana com maior índice de pessoas doentes de fome

A hora do carro do lanche é a mais esperada no bairro de Oseias Andrade, o mais novo e um dos mais pobres de Nova Canaã, no sudoeste da Bahia. Nem bem a van branca cruza a esquina e as famílias se põem à porta de casa. Quem sabe hoje receberão bolo? Talvez até um pedaço de canjica para acompanhar o cafezinho da noite. Seja o que for, será muito bem-vindo, revelam os rostos esperançosos, mas cansados de sempre esperar.

A van, carregada de refeições ou lanches preparados pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Cidadania, anuncia sua chegada com música, ao fim do dia. “Chegou o carro da merenda, filha”, avisa Heluanna de Jesus Silva, 31 anos, a Maria, de um ano, ao ouvir o som. As duas correm para esperar a vez delas.

Sem compreender o significado daquele ritual, a bebê cresce na cidade baiana com a maior proporção de internações por desnutrição, nos últimos dois anos de uma pandemia que esvaziou estômagos.

De 2020 até abril de 2021, 250 moradores de Nova Canaã foram internados doentes de fome, chamada tecnicamente de “desnutrição proteico-calórica". É quando o corpo recebe menos nutrientes do que precisa para se manter, resume Sandra Chaves, nutricionista e professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

A média de 157 internados por 10 mil habitantes, segundo a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia, indica que a desnutrição corresponde a 50% dos 504 casos de covid-19 no município. Pode-se dizer que duas pandemias coexistem. Uma delas, mais antiga que a do coronavírus, maltrata aos poucos, todos os dias.

Funcionárias que trabalham no "carro da merenda", tão esperado no bairro de Oseias Andrade (Foto: Divulgação)

Há comida na dispensa da família de Heluanna, só não se sabe quando ela acabará, por isso, é preciso fracionar as refeições, situação que reflete o termo “insegurança alimentar”, em uso no Brasil desde 1994.

“Na janta, a gente toma café com bolacha. Mas tem horas que falta a bolacha, e aí, fazer o quê?”, pergunta a manicure que perdeu a maioria dos serviços e ainda assim se sente privilegiada, pois o marido está empregado como guarda municipal.

A fome e a insegurança alimentar são percebidas no cotidiano local. A pressa pela vez na fila do carro da merenda é um dos sinais. Nem todos contam suas histórias, mas a realidade ultrapassa os limites das palavras. Para muitos que aguardam a van, não é a primeira vez que conhecem o ronco no estômago. 

Na infância, Helluana via a mãe tirar a comida da própria boca para dar a ela, quando batalhavam no Rio de Janeiro o sonho da “vida melhor”. E Dona Maria, na própria juventude, avistava os irmãos irem caçar codorna para pôr nas panelas vazias. “Minha avó repartia três ovos para 11 filhos”, conta Helluana. Dois tios dela morreram de desnutrição ainda bebês, suspeita a família.

Nem sempre as famílias Jesus Silva, como a de Helluana, têm acesso a médicos. Assim, a fome segue invisibilizada. 

A "terra prometida" marcada pela fome 

À noite, é hora de ir a missas e cultos. O município de Nova Canaã é marcado pela religiosidade e a Deus clama a maioria dos moradores. Dos 16 mil habitantes, 12.380 se autodeclaram católicos e 7.585 evangélicos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há igrejas, protestante e católicas, em cada canto dessa cidade emancipada em 1961 e fundada, cinco décadas antes, por famílias batistas. Na bíblia, “Nova Canaã” significa “terra prometida”. Na Bahia, é uma terra que sente fome.  

O pastor Wellington Junior é o líder da primeira Igreja Batista da cidade, de 1910. Quase todas as semanas, pessoas batem à sua porta em busca de ajuda. Em 2010, ano do último censo do IBGE, 3,1 mil habitantes estavam na extrema pobreza. Na época, apenas 992 pessoas ganhavam mais de um salário mínimo, enquanto 6.629 não tinham qualquer rendimento. 


“O que fazer quando alguém diz que não o que para dar ao filho?”, Wellington questiona.

A resposta, para ele, é tirar quilos de alimento do próprio armário para doar e incentivar doações entre os fiéis da igreja.

A pesquisa chamada “Olhe para a Fome”, da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar, mostra que 19 milhões de brasileiros ficaram sem ter dinheiro para comer, no fim de 2020, maior nível desde 2004. A insegurança alimentar grave, caracterizada pela falta completa de alimentos, esteve presente em 13,8% das casas nordestinas. As áreas rurais, dependentes da agricultura familiar, foram as mais afetadas. No semiárido brasileiro, onde está Nova Canaã, 47% da população está faminta.

A zona rural é a maior parte de Nova Canaã, onde um punhado de mercadinhos e bares compõem a paisagem, rodeada por morros. Em média, 60% das pessoas vivem longe da zona urbana e protagonizam as situações mais graves da desnutrição. A maioria delas trabalha na Prefeitura ou em cultivos de hortifruti ou na produção de laticínios. Sem ter onde escoar todos os produtos durante a pandemia, perderam parte da renda, que não acompanha a alta do preço dos alimentos. O que plantam também não é o suficiente.

Os arredores de Nova Canaã têm 30 regiões rurais, algumas delas a mais de uma hora da cidade. A Prefeitura só chega a 14 delas para distribuir comida. Em parte delas, os funcionários caminham até as casas para fazer a entrega. O Rio do João, parecida a um vilarejo, é uma dessas localidades de difícil acesso. É como se a cidade tivesse ficado muito distante dali, mas está a 50 minutos.

Às vezes, acontece de Irlane de Jesus, 39, coordenadora da cozinha comunitária que organiza a distribuição de alimentos, encontrar famílias que choram ao receber cestas de alimento. Muitas, embora não digam, terão apenas aquela comida por tempo indeterminado.

“São pessoas que se sentem esquecidas e a cada ida, nos surpreendemos, porque descobrimos situações desconhecidas”, conta Irlane.

A distribuição de refeições de casa em casa começou na pandemia, mas não ocorre todos os dias. “A gente não faz com a regularidade que gostaria”, lamenta Denisy Matos, secretária municipal de Desenvolvimento. Desde agosto de 2012, pouco depois de ser apossada, a fome ao redor a aflige. Foi quando conheceu, depois de uma tempestada que caiu sobre a cidade, uma família que morava sob uma lona em meio a sucatas, uma panela e uma lata com farinha.

“Se aqui a gente tinha essa realidade, comecei a pensar na zona rural”, lembra Denisy.

Ainda em 2012, a Prefeitura ganhou um edital e abriu a cozinha comunitária. A fome não cessou e, desde o ano passado, surgiu uma preocupação a mais - os cortes orçamentários. O orçamento nem sempre acompanha as necessidades. Na pandemia, o Congresso Federal aprovou um corte de 40% no Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar e 27% no Programa Nacional de Alimentação Escolar, fundamentais para as famílias mais vulneráveis. 

407 mortos por fome

Aquele dia 26 de maio era a data do aniversário de Irene de Deus, 47, mas "não vai ter bolinho", contrapõe a agricultora, que mora numa zona rural de Nova Canaã, a comunidade quilombola Lagoinha. As casas são simples, algumas sem reboco, e todos se conhecem. “Irene, você sabe de alguém que já tenha tido algum problema de alimentação?”, perguntei. Não é preciso ir muito longe para encontrar insegurança alimentar e ela responde:

“Nesse assunto, minha filha teve um problema e a médica disse que começou com a alimentação incorreta”. 

A história a que Irene se refere é a de Edvana, um dos seus quatro filhos. Aos 10 anos, a menina adoeceu. Em Salvador, onde recebeu tratamento contra o que se descobriu ser uma leucemia, a médica diagnosticou que a alimentação incorreta da criança prejudicou o quadro e provocou anemia - ausência de ferro no sangue. “Não vou dizer que não tinha [comida], mas sempre pouca. E te falar que tinha verdura e legume, não”, conta Irene. A filha ficou curada oito anos depois.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, 80% dos casos de câncer têm relação com fatores ambientais. No Brasil, cânceres relacionados a hábitos alimentares estão entre as seis primeiras causas de mortes pela doença. “Lembro de uma época jovenzinha que a gente comia uma vez no dia. O almoço, e uma jaca, laranja, que a gente achava”, recorda. Quando a pandemia começou, Irene logo temeu.

Na Bahia, 3.795 pessoas trataram o quadro de desnutrição em hospitais desde 2020 e 407 morreram. Em Nova Canaã, uma pessoa morreu. Os dados de internação não aparecem maiores que em 2019, por exemplo, com 4.391 casos de desnutrição proteico-calórica foram notificados. Isso pode indicar subnotificação. Durante a pandemia, 79 municípios baianos não lançaram os dados de internados pelo problema. 

Uma semana de alimentação restrita pode ser o suficiente para desencadear um quadro agudo de desnutrição que leva à internação, quando os pacientes recebem reposições nutricionais e passam por intervenções específicas, a depender do quão afetado foi o corpo. Nova Canaã tem 13 unidades de saúde, entre elas, um hospital. Mas, é possível que as internações ocorram em Vitória da Conquista e Itabuna, ambas a duas horas de distância, pela estrada.

“A situação de Nova Canaã é a de muitas cidades, muitas famílias, mas não tenho informações sobre esses casos específicos”, afirma o secretário municipal de Saúde, Feliciano Nascimento. 

A desnutrição crônica, quando até a estatura de um indíviduo é prejudicada, pode causar problemas de saúde ainda mais graves, como um câncer, e reduzir a expectativa de vida, alerta Sandra Chaves, nutricionista e professora da Ufba. Em 2015, a Pesquisa de Insegurança Alimentar do Plano Estadual de Segurança Alimentar trouxe dados sobre a fome. 

“A gente tinha 92,6% dos lares com algum tipo de insegurança alimentar nessa região onde está Nova Canaã”, alerta Sandra.

Desde 2003, a Bahia possui um Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional, para garantir que as pessoas se alimentem regularmente. O estado, no dado mais atualizado de 2015, aparecia como o quinto do Brasil com maior percentual de famílias em insegurança alimentar grave - 6,6% ou 317 mil domicílios. Os maiores desafios, mostrou a pesquisa, eram fortalecer a agricultura familiar, promover regularização fundiária, incentivar a economia solidária e instituir processos de educação alimentar. Nenhum deles, como se vê, ficou no passado. 

A cada dez dias, Aline Moura, 40, participa de reuniões do Centro de Referência da Assistência Social de Icaraí, um dos dois distritos de Nova Canaã. A equipe recebe encaminhamentos da área de saúde, da educação e mapeia pessoas desnutridas. Quando o acompanhamento é iniciado, as famílias recebem visitas semanais que verificam a situação delas. “Neste ano, recebemos seis relatos associados à desnutrição”, conta Aline, que, como historiadora, observa o impacto das mudanças na cidade na área da nutrição.

Uma delas é o enfraquecimento das antes extensas lavouras de café, que empregavam boa parte da população. A economia ficou sustentada nas pequenas propriedades ou nas grandes, mas não muitas, terras de famílias ricas, onde trabalham os mais pobres, como aqueles obrigados a esperar a van da merenda que trará a próxima refeição. Quem sabe hoje servirão cuscuz com carne? Resta, mais um dia, aguardar.

SERVIÇO: DOAÇÃO DE ALIMENTOS

O quê? No Portal do Voluntariado, você encontra iniciativas de projetos voluntários e pode fazer uma doação

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